Aqui, temos um relato da Wal trazendo um resumo da história da nossa casa…
“Minha mãe nasceu em 1937, e sua intuição começou a aflorar entre os anos de 1947 e 1950. Por volta de 1970, ela decidiu abrir a casa de caridade. Desde muito menina, já vivia experiências espirituais, já que minha avó era benzedeira, e os benzedeiros antigos já trabalhavam com a intuição vinda dos Pretos Velhos. Minha mãe já tinha essa ligação desde criança, com certas intuições que só se intensificaram com o tempo.
Com o passar dos anos, sua mediunidade foi se desenvolvendo naturalmente. Ela começou a realizar alguns atendimentos espirituais sozinha, em casa mesmo, e a procura foi crescendo a cada dia. Sentiu, então, a intuição de abrir uma casa de caridade. Como tudo ainda era muito simples, ela começou no quintal de casa. Em pouco tempo, o trabalho foi crescendo, crescendo, crescendo e por volta dos anos 1980 ela decidiu oficializar a casa.
O nome Tenda de Umbanda Caboclo Pena Branca surgiu entre 1975 e 1978. Esse nome veio porque o Caboclo Pena Branca já era seu guia espiritual. Ele se manifestava por meio dela e pediu que houvesse um espaço onde a caridade pudesse ser realizada de maneira mais ampla, alcançando mais pessoas. Ele também expressou o desejo de que o nome da casa fosse o dele. No entanto, sempre fez questão de que não fosse “Templo de Umbanda”, mas sim “Tenda”, um nome mais singelo, mais humilde — algo que refletisse a essência verdadeira da Umbanda, sem ostentação, mas com espiritualidade pura e viva. E a relação da minha mãe com a espiritualidade é justamente isso, né?
Minha mãe cresceu em uma família onde minha avó era extremamente católica, mas também benzedeira. Daquelas que a criançada chegava molezinha e saía brincando, rindo. E assim começou essa relação com a espiritualidade. E, onde a casa funciona hoje, é o local que sempre foi na Pirajá 473, no quintal da nossa própria casa.
As primeiras giras aconteceram com pessoas conhecidas, que buscavam ajuda espiritual. Eu sempre estive presente, mas quem trabalhou por mais tempo ao lado da minha mãe foi minha irmã. Quando me casei, fui morar no interior, o que dificultou minha presença constante. Ainda assim, sempre que possível, participava. E, quando minha mãe ia passar férias comigo em Jaú, dizia que ali estava abrindo uma extensão da casa do Caboclo Pena Branca.
Curiosamente, embora minha mãe tivesse mediunidade fortíssima — do tipo que desenvolvia até uma mosca —, ela nunca tentou me desenvolver. Mas quando realizava os trabalhos espirituais em Jaú, mesmo que o pai da Pri recebesse e os vizinhos frequentassem, ela dizia que a responsável espiritual pela casa era eu. Engraçado que mesmo sendo muito questionadora, eu nunca questionei isso. E nunca quesitonei também o fato de que ela nunca quis me desenvolver, né?. Ela também me entregou a guia do Caboclo Pena Branca e disse: “Um dia você vai entender por que estou te dando essa guia.” E por mais que o orixá dela era Xangô, o regente da casa mesmo sempre foi o caboclo, né? Seu Pena.
Após o falecimento dela, em 2000, eu fechei o centro e falei pro povo, “Ó, não dá, não tem mais… não sou desenvolvida, tal, embora eu seja responsável pela parte espiritual, mas assim, responsável, né, sem receber”. Quando fechou, ficou uns dois meses fechado, e os filhos começaram a pedir, porque eles não se sentiam bem em nenhuma outra casa, que aquela casa era diferente, a gente, a nossa esquerda era de branco, e que eles estranhavam muito as normas de outras casas, se não dava para a gente reabrir.. Eu falei para eles “Bom, então tá, então a gente vai fazer o seguinte, a gente vai abrir como uma escolinha, né, só para nós, para os filhos que estavam com a minha mãe, eu, o Cleber, só para nós. Nós não vamos atender ninguém”.
Durante esse tempo, comecei a frequentar uma casa de um amigo para entender melhor minha missão. Foi ali que o guia espiritual daquela casa, o Sr. Pena Azul, me disse: “Você está dentro de uma missão. Vai herdar muitas entidades da sua mãe.” E, então, eu comecei a entender: as entidades dela eram também as minhas — o Caboclo Pena Branca, a minha moça, o meu Preto Velho, que eu não trabalho muito com ele, mas o meu preto velho era o dela. Tudo fez sentido. Foi por isso que ela nunca me desenvolveu: porque a missão já era minha, e a espiritualidade já estava cuidando de tudo com antecedência.
O processo de aceitação dessa missão foi difícil. Quando me disseram que eu herdaria o Caboclo Pena Branca, achei que era coisa da minha cabeça. Mas as confirmações vieram, e entendi que, ainda em vida, minha mãe já estava me mostrando. A entrega da guia, os trabalhos em Jaú, tudo era parte disso. É coisa mesmo que já tinha que ser, que a espiritualidade já estava preparando, né? É uma coisa assim, é muito lindo quando você para para pensar.
Reabrimos a casa como escolinha, aí veio o primeiro um que tava com uma dor aqui, outra dor ali, e aí veio um outro rapaz que minha mãe atendia, ele tava desenganado pelos médicos. Ai eu falei pra turma, “Ó, vamos fazer o seguinte, vamos atender só esse, porque afinal de contas, né, ele tá muito problemático e tal…” e a gente continua só na escolinha. Aí atendemos esse rapaz, fizemos um trabalho, ele de quase morto que estava, saiu do cemitério, andando de rindo. Então, vimos que não dava mais pra negar nosso chamado de cura aos outros.
Da época da minha mãe até hoje, quase nada mudou. Ela sempre esteve muito à frente de seu tempo. Quando outras casas ainda trabalhavam apenas com Caboclos e Pretos Velhos, minha mãe já recebia Boiadeiros, Ciganos, Marinheiros e outras linhas. Nossa esquerda sempre de branco, sem medo e sem sombras. Apenas atualizamos nomes e expandimos o conhecimento, como por exemplo a minha mãe já cultuava a Yansan do tempo, a Yansan do vento e a Yansan, então só demos os ajustes.
Depois, nós fomos fazer cursos, porque aí quando a turma resolveu mesmo voltar, eu falei, pra cada um fazer curso, se especializar. Aí eu, Cleber e a Pri, fizemos Teologia da Umbanda, depois fizemos vários cursos de magia, magia das velas, magia das ervas, com o Rubens Saraceni, que é uma pessoa que eu respeito muito. E, estamos aqui até hoje e pretendemos seguir até onde pudermos com essa missão.”
Conversa aberta com Walkiria Dellavia.
